O físico Benjamin Thompson (Conde Rumford), bastante conhecido por seus trabalhos em termodinâmica, também pode ser considerado o "inventor" do fogão (meados de 1750). Até então as carnes eram assadas em espetos sobre o fogo. Simples (?) assim. Mas ao cozinhar sua carne em seu assador de batatas, sob temperaturas bem menores do que o do fogo direto, ele percebeu que baixas temperaturas davam melhores resultados em termos de textura e que aquela bela perna de cabrito ficava muito mais suculenta. Talvez esse possa ser considerado, inclusive, o primeiro experimento científico, controlado, com comida!
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Fogão de Rumford (fonte: hearthcook.com) |
Mas é claro que o seu ponto de vista tinha que ser provado! E durante uma festa (belo jeito de provar um ponto) ele preparou as pernas de cabrito num canto da casa, assados sobre o fogo direto e, no outro canto da casa, ele fez as pernas de cabrito em seu assador de batatas, sob baixa temperatura. No final ele esperava ver em qual canto da casa havia sobrado mais carne. E qual não foi a surpresa quando ele percebeu que sobrou bem mais carne assada no canto do assador de batatas... Moral da história: você pode ser um ótimo cientista de renome e ainda assim estragar tudo!
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Perna de Cabrito (fonte: http://chestofbooks.com) |
De fato, assar a carne sob baixas temperaturas, por mais tempo, oferece uma carne bem suculenta e macia. Isso porque as enzimas responsáveis por deixar a carne mais molinha continuam atuando por mais tempo, já que a temperatura no interior da carne continua mais baixa, por mais tempo!
E quais são essas enzimas? Uma delas é a calpaína que enfraquece as proteínas de suporte que mantêm os filamentos de contração do músculo no lugar. Ou seja... temperaturas abaixo de 40oC, enzimas mais ativas, proteínas de suporte mais fracas, carne mais macia! Outras enzimas importantes neste processo são as catepsinas, que também atuam sobre os filamentos de contração muscular e as moléculas de suporte, quebrando-as. Além disso essa enzima também enfraquece o colágeno no tecido conectivo, dissolvendo-o em gelatina durante o cozimento, fazendo a carne ficar mais macia e suculenta. Este processo enfraquece a pressão de esmagamento que o tecido conectivo exerce durante o aquecimento, conservando a umidade (as moléculas de água) no interior da carne.
Bom, mas por que então as pessoas ainda preferiram a carne assada no fogo direto? Porque após assar a perna de cabrito em baixa temperatura, Benjamin deveria ter submetido a carne (mesmo que por um período menor de tempo) à alta temperatura para que a carne tostasse, adquirisse aquela cor bronze que deixa a superfície crocante e deliciosa!!! Mas isso é assunto para outro post... =)